sexta-feira, 10 de abril de 2020

Anotações de leitura

Eu estou lendo Barthes. É uma viagem a outro tempo, estou noutro tempo. É o meu mergulho de quarentena, em que me volto mais para o passado, para releituras ou leituras de lacunas, do que para qualquer projeto propriamente de pesquisa.
Quero revisitar a noção de escrita, a relação com a escrita, a relação de Barthes com a noção e a prática da escrita, a minha relação com a escrita. Ela se tornou premente no meu momento de aposentadoria, em que não mais preciso escrever por obrigação, apenas por gosto. Ou por necessidade. Que necessidade? Indagar o Barthes é indagar-me a mim mesmo.
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Agora vou reler Aula. Meu pequeno volume está todo anotado, mas não faço mais ideia do que vou encontrar dentro dele. Dentro? Se estivesse lendo um ebook não haveria um "dentro" material, embora a gente se adentre num texto mesmo em formato digital.
Quero ler Aula, quero ver o que tem Barthes a dizer sobre a pedagogia ao inaugurar e assumir uma Cadeira tão contestada. Sua Aula deve ser um canto de vitória. Possivelmente extenuado.
Em mim bateu de Barthes a impossibilidade da pedagogia em literatura, quando tomada esta da perspectiva de um certo tipo de leitura. A leitura literária.
A literatura só é literatura se a experiència da leitura é literária.
O prazer do texto.
E Camera clara. A dicotomia entre studium e punctum reatualiza aquela entre prazer e gozo do texto.
E retornei ao nunca antes lido Sade Fourier Loyola.
Buscava subsídios para a noção de biografema.
Vejo no livro, de que li somente o prefácio introdutório, a mesma tensão entre uma pedagogia que busca ir contra, ou colocar-se diferente, e o edifício da pedagogia existente. A busca de sair do studium, do estúdio.
(Minha primeira motivação nessa volta a Barthes era que estava precisando dar uma relida e refinada nas noções de fetiche e de biografema, a primeira por conta de meu livro a sair pela CEPE, a segunda pelo trabalho que estou fazendo com biografias de escritores - um corpus  do gênero recortado dos últimos 20/25 anos)
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Diário

Eu não consigo escrever este diário porque ele deveria conter toda a verdade sobre as motivações que levaram Italo Moriconi Jr/Italo Moriconi a criar um novo nome poético, uma nova assinatura pública, quisera ele que fosse secreta. italomori - foi seu primeiro login na internet.
Quisera ele que a poesia fosse secreta.
Um segredo passado de mão em mão.
Tornar o secreto, público, de maneira cifrada e forte, pancada sedutora do belo verso: a frase.
A frase, a caligrafia, a linha que delineia o ideal de corpo.
Por ela dei minha vida: pela simples frase, pelo contorno dos corpos terrestres e outros na ponta do lápis

domingo, 5 de abril de 2020

Oficina de poesia

CONTAMINAÇÃO

Você me deu vida, como um vício.

TRAMA DO NOME

Para dar nascimento à assinatura,
será preciso deslindar a trama do nome,
seus elementos geográficos.

Por teu nome  estarás contaminado
por quem te antecedeu, e contaminarás.

HERANÇA

(Filho, te apossa do que não pode ser transferido
                                               a mais ninguém.)
Boca se fecha a sete chaves,
cheia de flores, cheia de insetos.

Aqui me batizo, me dou um novo nome:
italomori
autor de um punhado de poemas,
o que veio depois de Italo Moriconi Junior
 e depois de Italo Moriconi saibam
passei por essas terras de cimento e asfalto,
toc toc a tamancadas
eis aqui um ramalhete de flores tesas
a cena original epigramática
é o traço - aqui viveu italomori
alheio e escravo da fortuna M
(por decoro omito o antigo nome e lavro)
Aqui nasce italomori
e este é caderno de anotações de
italomori
retirando das cinzas uns  quase sertões,
ao léu - errante como o peixe
errante erroso